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VI

No cárcere de Reading junto a Reading Town
Há um fosso de má fama,
E nele jaz um desgraçado a quem devoram
Cruéis dentes de chama.
Jaz num sudário ardente, e o mísero sepulcro
Seu nome não proclama.

E, até que Cristo chame os mortos, ali possa
Em silêncio jazer…
Não é preciso dar suspiros ocos, nem
Tolo pranto verter:
Aquele homem matara a sua coisa amada,
E tinha que morrer.

Apesar disso – escutem bem – todos os homens
Matam a coisa amada;
Com galanteio alguns o fazem, enquanto outros
Com face amargurada;
Os covardes o fazem com um beijo,
Os bravos, com a espada!

V

Não sei se as Leis são justas ou se as Leis são falhas…
Isso não cabe a mim.
Nós só sabemos, na prisão, que o muro é forte;
Como sabemos, sim,
Que cada dia é um ano, um ano cujos dias
Parecem não ter fim.

Mas isto eu sei, que toda Lei que a humanidade
Fez para o Ser Humano –
Desde que a Abel matou Caim, e desde o início
De nosso mundo insano –
Transforma o trigo em palha e salva só o farelo
Com um cruel abano.

Também sei isto – e que isto seja em toda mente
Uma noção tranqüila:
Tijolos de vergonha é o que usam na prisão
Quando vão construí-la,
E grades põem para Jesus não ver como o homem
Os seus irmãos mutila.

Com barras o homem borra a graciosa lua
E cega o sol feraz:
E conservar coberto aquele Inferno é certo,
Pois lá dentro se faz
Algo que nem Filho de Deus nem Filho do Homem
Devem olhar jamais!

Como ervas venenosas as ações mais vis
Brotam no ar da prisão;
Ali, somente as coisas que são boas no Homem
Secarão, murcharão…
Guarda a porta pesada a Angústia; e o Carcereiro
É a Desesperação.

Lá a criança assustada fica à míngua até
Que chore noite e dia;
Lá se fustiga o fraco, e se flagela o tolo,
E ao velho se injuria;
Lá muitos endoidecem, todos se embrutecem,
Ninguém se pronuncia.

A nossa pequenina cela é uma latrina
De treva e sujidade.
E o bafo azedo e forte de uma viva Morte
Sufoca toda grade;
Resta a Luxúria só – e tudo mais é pó
Na mó da Humanidade.

A água salobre que bebemos traz consigo
Uma nojenta lama,
E o pão amargo que eles pesam na balança
Tem greda em cada grama,
E o Sono, com olhar selvagem, não se deita,
Mas para o Tempo clama.

Porém, se a magra Fome e a Sede estão qual áspide
E víbora em porfia,
Pouco importa a comida na prisão servida,
Pois o que mata e esfria
É que de noite o coração se torna a pedra
Que se ergue quando é dia.

Tendo no peito a meia-noite, e em sua cela
Crepúsculo eternal,
Cada homem rasga a corda ou gira a manivela
No Inferno pessoal,
Quando o silêncio é mais terrível do que o som
De um sino de metal.

E jamais se aproxima com palavras doces
A doce humana voz;
E o olho a vigiar constantemente junto à porta
É impiedoso e feroz…
E, nessa alheação, apodrecendo vão
Corpo e alma em todos nós.

E a corrente da Vida assim enferrujamos
Na torpe solidão:
E alguns homens praguejam, e outros homens choram
Ou nem gemidos dão…
Mas as eternas Leis de Deus rompem bondosas
O pétreo coração.

E cada coração no cárcere partido –
Na cela ou onde for –
É como aquele frasco roto que entregou
Seu tesouro ao Senhor,
E encheu o lar do impuro lázaro com nardo
Do mais alto valor.

Feliz o coração partido: pode a paz
Do perdão conquistar!
Senão, como o homem vai fazer reto o seu plano
E do Erro se limpar?
Como pode, a não ser por coração partido,
O Senhor Cristo entrar?

E o de garganta rubra e inchada, o de olhar fixo,
Aguarda enternecido
As santas mãos que ao paraíso o bom ladrão
Haviam conduzido;
E Deus jamais desprezará um coração
Contrito e arrependido.

Três semanas de vida deu-lhe o homem da Lei
Com a rubra casaca,
Três pequenas semanas, para curar na alma
O mal que à alma lhe ataca,
Limpar cada sinal de sangue sobre a mão
Que segurou a faca.

E ele lavou com lágrimas de sangue a mão
Que guiou o cutelo,
Pois só o sangue limpa o sangue, e apenas lágrimas
Livram do pesadelo…
E a nódoa carmesim que fora de Caim
De Cristo é o níveo selo.

IV

O Capelão não reza o culto na capela
Quando enforcam alguém:
Tem nesse dia o coração muito enojado,
Palor nas faces tem;
Ou aquilo que traz nos olhos estampado
Não deve olhar ninguém.

Assim, trancaram-nos ?té quase meio-dia;
E eis o sino afinal..
Nossos guardas abriram cada cela à escuta
Com tinir de metal,
E cada homem deixou, pelos degraus de ferro,
O Inferno pessoal.

Saímos para o doce ar do Senhor. Porém,
Não como se soía,
Visto que o medo acizentava o rosto de um
E o de outro embranquecia;
E nunca em minha vida vi um bando olhar
Tão angustiado o dia.

Eu nunca vi um bando que tivesse
Tanta angústia no olhar
Ao ver a tenda azul que de céu, no cárcere,
Usávamos chamar,
E cada nuvem descuidada que passava
Livre e feliz pelo ar.

Mas entre nós havia alguns que caminhavam
Com semblante caído,
Por que sabiam que eles é que a morte mereciam,
Tivessem o devido:
O outro matara quem vivia: eles, porém,
Quem havia morrido.

Quem peca vez Segunda acorda uma alma morta
Para nova aflição;
Ergue-a do pálio maculado e novamente
A faz sangrar então;
Grandes gotas de sangue ainda a faz sangrar,
E a faz sangrar em vão!

Quais monos ou bufões, eis-nos em feia veste
De flechas recamada…
Íamos em silêncio, à roda, sempre à roda,
Na lisa área asfaltada;
Íamos em silêncio, à roda, sempre à roda,
Ninguém a dizer nada.

Íamos em silêncio, à roda, sempre à roda,
E a Memória feroz
À mente oca invadia com atrozes coisas,
Tal como um vento atroz.
E à nossa frente o Horror marchava e, rastejando,
Vinha o Terror empós.

Andando acima e abaixo, os guardas dominaram
Seu bando de animais;
Vestiam todos uniformes impecáveis,
Trajes dominicais;
Mas no que haviam trabalhado a cal nas botas
Mostrava bem demais.

Pois onde antes se vira escancarada cova
Já não havia mais nada:
Apenas um espaço com areia e lama,
Junto à muralha odiada,
E abrasadora cal, para que mortalha
Ao homem fosse dada.

Sim, tem mortalha, esse infeliz! E tal mortalha
Pouca gente reclama,
Pois sob um pátio de prisão descansa nu
Para agravo da fama,
E, com grilhões de ferro em cada pé, é envolto
Por um lençol de chama!

E, cáustica, lhe come a cal, o tempo todo,
Osso e carne macia;
Devora os ossos quebradiços quando é noite,
E a carne quando é dia…
Dia e noite, porém, devora o coração,
Que a fome lhe sacia.

Por um longo triênio, mudas ou raízes
Ninguém lá vai plantar;
Por um longo triênio, estéril, nu será
O maldito lugar,
Que há de ficar mirando o azul de céu atônito
Sem repressão no olhar.

Julgam que o coração de um assassino os grãos
Plantados mancha e estanca.
Não é verdade! A terra franca do Senhor
Não sabem quanto é franca;
E a rosa rubra desabrocha inda mais rubra,
A branca inda mais branca.

A rosa rubra vem de sua boca, a branca
Do coração malquisto!
Quem dizer poderia por que estranha via
O seu querer faz Cristo,
Quando ante o papa até o bastão do peregrino
Reflorescer foi visto?

Mas rosa, rubra ou láctea, florescer não logra
Aqui no ar da prisão;
Aqui neste lugar, o cacom o seixo e a pedra
São tudo o que nos dão,
Por que sabem que as flores podem nos curar
A desesperação.

Portanto, nunca irá rosa alva ou cor-de-vinho
Cair despetalada
Naquele estreito espaço com areia e lama,
Junto à muralha odiada,
A anunciar que Deus quis que a vida de Seu Filho
Por todos fosse dada.

Contudo, embora o odiado muro da prisão
Ainda o cerque tirano,
E não possa um espírito vagar à noite
Com grilhões a seu dano,
E não possa um espírito chorar se jaz
Em tal solo profano,

Ele está em paz, o desgraçado… Ou logo em paz
Há de estar a alma sua:
Nada mais o perturba; e ali, ao meio-dia,
O Terror não o acua,
Visto que a terra úmida e sem luz em que descansa
Não tem nem Sol nem Lua.

Foi enforcado como enforcam animais:
Nem mesmo foi tangido
Um requiém para dar repouso a seu espírito
Confuso e espavorido;
Mas bem depressa o retiraram, e o puseram
Num buraco escondido.

Sem as roupas de estopa, foi arremessado
Ao mosqueiro voraz;
E todos riram da garganta rubra e inchada,
Do olhar fixo e tenaz…
E o desdém que gargalha eivou toda a mortalha
Em que o culpado jaz.

Junto à cova injuriada o Capelão não veio
De joelhos orar,
Nem a marcou co’a cruz bendita que deu Cristo
Ao pecador vulgar,
Pois era esse homem um daqueles a quem Cristo
Desceu para salvar.

Mas tudo bem! Cumpriu apenas o destino
Traçado pela vida;
E por um pranto estranho a urna da Compaixão,
Trincada, será enchida,
Pois párias vão pranteá-lo, e os párias choram sempre,
E choram sem medida.

III

No pátio o chão é duro, alto o infiltrado muro
Aos que devem pagar;
E era ali nesse limbo, sob um céu de chumbo,
Que ele vinha por ar,
A cada lado um Carcereiro, por temor
De que fosse expirar.

Ou noite e dia se sentava em sua angústia,
Com uma guarda tesa
Sempre a vigiá-lo – vendo-o erguer-se para o pranto,
Curvar-se para a reza;
Sempre ali a vigiá-lo, para que o patíbulo
Não roubasse da presa.

Era o Regulamento, para o Diretor,
Sabidamente o forte;
Proclamava o Doutor que é um fato científico,
E nada mais, a morte;
Dois folhetos por dia o Capelão deixava,
Um piedoso suporte.

E cachimbo e cerveja, ao dia duas vezes,
Tinha ele em tempo certo;
Jamais oferecia esconderijo ao medo
Seu espírito aberto;
E muita vez dizia da sua alegria
Por ter o algoz tão perto.

E carcereiro nenhum indagava porque
Tinha esse estranho gosto:
O homem, a quem a sina sem mercê destina
No cárcere tal posto,
Precisa colocar nos lábios um cadeado
E mascarar o rosto.

Senão vai comover-se, e tentará ajudar
Àquele que o consterna;
E o que pode a Piedade em Antro de Assassinos,
Presa à mesma caverna?
Que palavra encontrar que possa confortar
A pobre alma fraterna?

Cabisbaixos gingamos em torno ao pavilhão,
Os Bufões em parada!
Pouco importava a nós, pois éramos a atroz,
Satânica Brigada:
E a cabeça raspada e pés de chumbo fazem
Alegre mascarada.

E a Brigada rasgava a corda de alcatrão
Com as unhas sangrantes;
Ela escovava o chão, esfregava o portão,
E as grandes cintilantes;
E lavava o assoalho, em alas no trabalho,
Com baldes reboantes.

E inda as pedras quebrava, os sacos remendava,
Co?a broca erguia o pó;
As latas estrugia, os cânticos gania,
Suava junto à mó;
Porém, no peito de cada homem se escondia,
Mudo, um Terror sem dó.

E mudo, todo dia, em onda ele surgia –
Onda de ervas coberta;
Ninguém lembrava a dura sorte que amargura
A gente tola e a esperta,
Até passarmos nós, voltando do trabalho,
Por uma cova aberta.

Era amarelo esgar a boca a bocejar
E algo vivo a querer;
Para o sedento asfalto a lama suplicava
O sangue, seu prazer;
E soubemos nessa hora que antes de outra aurora
Alguém ia pender.

Reentramos com calma, remoendo n’alma
A Morte, o Medo e o Nada;
Co’ uma sacola o algoz foi-se a arrastar os pés
Na sombria morada;
E cada homem tremia ao rastejar de volta
À tumba numerada.

Invadiam à noite o corredor vazio
Contornos de Temor,
Que erravam no desterro dessa rua de ferro
Com passos sem rumor,
E vinham, entre as barras que às estrelas velam,
Brancas faces compor.

Ele jazia como alguém que jaz e sonha
Em doce campo aberto;
Os carcereiros observavam-no a dormir,
Sem compreender, por certo,
Como podia dormir tal sono de abandono
Estando o algoz tão perto.

Os sonhos, porém, somem quando chora um homem
Que nunca chorou antes:
E assim, sem fim vigiamos nós – nós, os velhacos,
Os tolos, os meliantes;
E a nossas mentes veio, a rastejar, alheio
Terror com mãos crispantes.

Ai! Que tremenda coisa a remoer a culpa
Que é dos outros por direito!
Té o cabo envenenado a espada do Pecado
Cravou-se em nosso peito,
E foi chumbo fundido o pranto ali vertido
Pelo que fora feito.

Com sapatos de feltro os guardas se esgueiravam
Nas portas com cadeado;
O seu olhar de espanto via em cada canto
Um vulto recurvado;
E não sabiam por que se ajoelhava a orar
Quem nunca havia orado.

A noite toda oramos, loucos pranteadores
Do morto a nosso encargo!
As plumas no caixão eram as que agitava
A meia-noite ao largo;
E ao sabor do Remorso era o sabor da esponja
Com o seu vinho amargo.

Cantou o galo cinza, e então o galo rubro,
Mas nunca vinha o dia:
Com formas tortas, de tocaia em nossos cantos,
O Terror prosseguia;
Turbavam nossa paz todas as almas más
Que erram na hora tardia.

Em vôo veloz, iam por nós tal como um bando
Que em meio à neve passa;
Com torneio e torção, seu fino rigodão
Da lua faz chalaça,
Nesse encontro espectral de andamento formal
E repulsiva graça.

Com trejeitos se vão as sombras, mão com mão,
Formando uma cadeia;
Sua lenta ciranda era uma sarabanda
Em fantasmal colmeia,
Desenhando – os grotescos – doidos arabescos,
Como o vento na areia!

Fazendo piruetas como marionetes,
Saltitavam absortos;
Mas com flautas de Horror erguiam seus clamor
Hediondos e retortos…
Seu canto era alongado, seu canto era gritado,
Canto que acorda os mortos.

– Oho!? Clamavam. – Largo é o mundo! Mas que embargo
É um membro acorrentado!
E também é cortês, sim, uma ou outra vez
Arremessar o dado;
Na Casa da Vergonha, entanto, jamais ganha
Quem joga co’o Pecado.?

Não era apenas ar o bando a cabriolar
Com tal gozo e prazer:
Para quem tinha a vida por grilhões contida
E não podia correr –
Chagas de Cristo! – os seres eram coisas vivas,
Terríveis de se ver.

Rodavam frente a frente. Rindo tolamente,
Uns aos pares valsavam;
Outros, com requebrar próprio de um lupanar,
Nos degraus se esgueiravam…
Com seu desdém sutil e seu olhar servil,
A orar nos ajudavam.

Pôs-se então a gemer o vento da manhã,
Sem à noite espantar –
A noite que tecia a teia da agonia
No seu grande tear;
E, orando ali, bem cedo nos venceu o medo
Da Justiça Solar.

Gemendo, o vento em volta dos chorosos muros
Vagava; até que, enfim –
Roda de aço a girar – sentimos o arrastar
Dos minutos sem fim.
Vento gemente! O que fizemos para termos
Um senescal assim?

Eu vi então as negras barras (gelosia
Com o chumbo forjada)
Movendo-se, ante a minha cama de três pranchas,
Na parede caiada,
E soube que nalgum lugar fazia Deus
Ser vermelha a alvorada.

Às seis horas limpamos nossas celas,
Às sete tudo é espera…
E o vibrar e o voltear de uma asa poderosa
Sobre o cárcere impera,
Pois o Senhor da Morte – o bafo frio e forte –
Para matar viera.

Em real pompa não passou, nem cavalgou
Corcel branco-lunar.
O alçapão corredio e três jardas de fio
Bastam para enforcar:
Co’a corda da vergonha veio a ação medonha
O Arauto praticar.

Éramos como um bando em pântano tateando
Na suja escuridão:
Não ousávamos dar vazão à nossa angústia,
Dizer uma oração;
Algo morrera em nós, e o que morrera fora
A Esperança… a Ilusão.

Pois a cruel Justiça do Homem Segue avante,
Vai firme, não trepida:
Tanto ela mata quanto mata o forte
Em sua mortal corrida…
É com tacão de ferro que ela mata o forte
A hedionda parricida!

Grossa de sede a língua, à espera das oito horas
Sentamo-nos à toa,
Porque o bater das oito é o sino do Destino
Que nos amaldiçoa
E tem a seu serviço um laço corrediço
Para a alma ruim e a boa.

Ficamos cada qual à espera do sinal
(Nenhuma opção melhor),
Como coisas de pedra em vale solitário,
Sem voz e sem rumor;
Mas cada coração batia lesto e presto,
Qual louco num tambor!

Quando, em súbito choquem, vem do relógio um toque
Que fere o ar invernoso;
Então, todo o presídio deu triste gemido
De desespero ocioso,
Igual ao som que chega aos assustados charcos
Do covil de um leproso.

E, como muitas vezes no cristal de um sonho
Vê-se o pior delito,
Eis na trave enganchada a corda besuntada
De cânhamo maldito,
E eis o som da oração que o laço do carrasco
Estrangulou num grito.

Somente eu conheci a dor que o fez berrar
Com amargor tão forte,
E os remorsos violentos e suores sangrentos
De sua negra sorte:
Quem vive mais do que uma vida também deve
Morrer mais que uma morte.

II

Nosso guardião passeou no pátio seis semanas
O cinza ainda vestia.
Com seu boné de críquete e seu passo lépido
Que alegre parecia;
Mas nunca em minha vida vi alguém olhar
Tão angustiado o dia.

Eu nunca vi alguém na vida que tivesse
Tanta angústia no olhar,
Ao contemplar a tenda azul que os prisioneiros
De céu usam chamar,
E as nuvens divagantes arrastando velos
Enredados pelo ar.

Não contorcia as mãos, como o imbecil que tenta
Nutrir, com cego afã,
No antro do negro Desespero, essa enjeitada
Que é a Esperança vã;
Ele apenas se punha a contemplar o sol,
Sorvendo o ar da manhã.

Não contorcia as mãos, e nunca, fraco ou frouxo,
Chorava em seu alinho,
Mas o ar, como se fosse anódino saudável,
Sorvia ali, sozinho;
E, com a boca aberta, ele sorvia o sol
Como se fosse vinho!

E, no outro pavilhão, eu e as demais almas
Também a padecer,
Tendo esquecido se nosso erro fora grave
Ou um erro qualquer,
Olhávamos entanto, com obtuso espanto,
Aquele que ia pender.

E estranho era notar, passando, como lépido
E alegre parecia;
E estranho era observar o modo como olhava
Tão angustiado o dia;
E estranho era pensar como era grande a dívida
Que ele pagar devia.

O olmo e o carvalho têm folhagens agradáveis,
Primaveril tributo;
Já a forca, onde a serpente finca embaixo o dente,
É uma árvore de luto,
E, verde ou ressequida, lá se perde a vida
Bem antes que dê fruto.

O mundano procura algum lugar na altura
Como o maior troféu;
Mas quem vai ao encalço do alto cadafalso
E da corda do réu,
Para enxergar por uma gola de assassino
A última vez o céu?

Se brilham vida e amor ao som de violinos
É doce e bom dançar;
Dançar seguindo a pauta do alaúde ou flauta
É ameno e singular;
Não é doce, ao revés, quando com ágeis pés
Se dança encima do ar!

Com mórbida suspeita, em curiosa espreita,
O olhamos dia a dia,
Cada um também assim a imaginar seu fim,
Por que ninguém sabia
Qual rubro inferno horrível sua não visível
Alma atormentaria.

Não mais, por fim, o morto caminhava em meio
Aos Julgadores seus,
E eu sabia que estava na terrível jaula
Com o banco dos réus,
E que seu rosto eu nunca mais veria neste
Doce mundo de Deus.

Fomos dois barcos condenados na tormenta,
Cruzando um do outro a via;
Não fizemos sinal e não dissemos nada…
Nada a dizer havia,
Pois nosso encontro não se deu na noite santa,
Mas no infamante dia.

Sendo dois réprobos, por muros de prisão
Vimo-nos, pois, rodeados;
Este mundo expulsara a nós de seu regaço,
E Deus, de seus cuidados;
Na armadilha de ferro sempre à espera do Erro
Nós fomos apanhados.

Após o fim das peripécias do Pequeno Principe, estarei colocando uma Ode em homenagem a OScar Wilde. Esta, é a Ode onde ele cita uma célebre frase, que me faz pensar muito em meu modo de vida, e em como sou.

“A gente sempre destrói aquilo que mais ama
em campo aberto, ou numa emboscada;
alguns com a leveza do carinho
outros com a dureza da palavra;
os covardes destroem com um beijo,
os valentes, destroem com a espada.”


Tradução de Paulo Vizioli

I

O casaco escarlate não usou, pois tinha
De sangue e vinho o jeito;
E sangue e vinho em suas mãos havia quando
Prisioneiro foi feito,
Deitado junto à mulher morta que ele amava
E matara em seu leito.

Ao caminhar em meio aos Julgadores, roupa
Cinza e gasta vestia;
Tinha um boné de críquete, e seu passo lépido
E alegre parecia;
Mas nunca em minha vida vi alguém olhar
Tão angustiado o dia.

Eu nunca vi alguém na vida que tivesse
Tanta Angústia no olhar,
Ao contemplar a tenda azul que os prisioneiros
De céu usam chamar,
E as nuvens à deriva, que iam com as velas
Cor de prata pelo ar.

Num pavilhão ao lado, andei com outras almas
Também a padecer,
Imaginando se seu erro fora grave
Ou um erro qualquer,
Quando alguém sussurrou baixinho atrás de mim:
– O homem tem que pender.?

Cristo! As próprias paredes da prisão eu vi
Girando a meu redor
E o céu sobre a cabeça transformou-se em elmo
De um aço abrasador;
E, embora eu fosse alma a sofrer, já nem sequer
Sentia a minha dor.

Sabia qual o pensamento perseguido
Que lhe estugava o andar,
E por que demonstrava, ao ver radiante o dia,
Tanta angústia no olhar;
O homem matara a coisa amada, e ora devia
Com a morte pagar.

Apesar disso – escutem bem – todos os homens
Matam a coisa amada;
Com galanteio alguns o fazem, enquanto outros
Com face amargurada;
Os covardes o fazem com um beijo,
Os bravos, com a espada!

Um assassina o seu amor na juventude,
Outro, quando ancião;
Com as mãos da Luxúria este estrangula, aquele
Empresta do Ouro a mão;
Os mais gentis usam a faca, porque frios
Os mortos logo estão.

Este ama pouco tempo, aquele ama demais;
Há comprar, e há vender;
Uns fazem o ato em pranto, enquanto que um suspiro
Outros não dão sequer.
Todo homem mata a coisa amada! – Nem por isso
Todo homem vai morrer.

Não vai morrer um dia a morte de vergonha
Num escuro traspasso;
Nem há de Ter um pano a lhe cobrir o rosto,
E no pescoço um laço;
Nem através do chão vai atirar os pés
Para o vazio do espaço.

Não vai sentar-se, noite e dia no silêncio,
Com uma guarda tesa
Que há de vigiá-lo quando tenta o pranto
E quando tenta a reza;
Sempre a vigiá-lo, para que não roube
Da prisão sua presa.

Não vai na aurora despertar com vultos hórridos
Cruzando o seu umbral:
O tiritante Capelão todo de branco,
O Xerife espectral,
E o Diretor, de negro luzidio, e a cara
Do Juízo Final.

Nem vai vestir, com pressa comovente, as roupas
De almas condenadas,
Enquanto um médico boçal exulta, e anota
Suas torções crispadas,
Manuseando o relógio com um tique-taque
De horríveis marteladas.

Nem, a arear-lhe a garganta, vai sentir aflito
A sede que antecede
O carrasco, enluvado como um jardineiro,
Que vem junto à parede
E ata-o com três correias, para que a garganta
Não sinta mais a sede.

Nem curvará a cabeça para ouvir o Ofício
Fúnebre ser lido;
Nem, enquanto o terror lhe diz dentro do peito
Não ter ele morrido,
Com seu caixão há de cruzar, ao se mover
Para o estrado temido.

Nem através de um teto vítreo vai fitar
O espaço azul… lá atrás;
Nem com lábios de argila um dia vai rezar
Para implorar a paz;
Nem, por fim, vai sentir em sua face trêmula
O beijo de Caifás.

Twittando por ai…

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Musicas – Last.FM

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