III

No pátio o chão é duro, alto o infiltrado muro
Aos que devem pagar;
E era ali nesse limbo, sob um céu de chumbo,
Que ele vinha por ar,
A cada lado um Carcereiro, por temor
De que fosse expirar.

Ou noite e dia se sentava em sua angústia,
Com uma guarda tesa
Sempre a vigiá-lo – vendo-o erguer-se para o pranto,
Curvar-se para a reza;
Sempre ali a vigiá-lo, para que o patíbulo
Não roubasse da presa.

Era o Regulamento, para o Diretor,
Sabidamente o forte;
Proclamava o Doutor que é um fato científico,
E nada mais, a morte;
Dois folhetos por dia o Capelão deixava,
Um piedoso suporte.

E cachimbo e cerveja, ao dia duas vezes,
Tinha ele em tempo certo;
Jamais oferecia esconderijo ao medo
Seu espírito aberto;
E muita vez dizia da sua alegria
Por ter o algoz tão perto.

E carcereiro nenhum indagava porque
Tinha esse estranho gosto:
O homem, a quem a sina sem mercê destina
No cárcere tal posto,
Precisa colocar nos lábios um cadeado
E mascarar o rosto.

Senão vai comover-se, e tentará ajudar
Àquele que o consterna;
E o que pode a Piedade em Antro de Assassinos,
Presa à mesma caverna?
Que palavra encontrar que possa confortar
A pobre alma fraterna?

Cabisbaixos gingamos em torno ao pavilhão,
Os Bufões em parada!
Pouco importava a nós, pois éramos a atroz,
Satânica Brigada:
E a cabeça raspada e pés de chumbo fazem
Alegre mascarada.

E a Brigada rasgava a corda de alcatrão
Com as unhas sangrantes;
Ela escovava o chão, esfregava o portão,
E as grandes cintilantes;
E lavava o assoalho, em alas no trabalho,
Com baldes reboantes.

E inda as pedras quebrava, os sacos remendava,
Co?a broca erguia o pó;
As latas estrugia, os cânticos gania,
Suava junto à mó;
Porém, no peito de cada homem se escondia,
Mudo, um Terror sem dó.

E mudo, todo dia, em onda ele surgia –
Onda de ervas coberta;
Ninguém lembrava a dura sorte que amargura
A gente tola e a esperta,
Até passarmos nós, voltando do trabalho,
Por uma cova aberta.

Era amarelo esgar a boca a bocejar
E algo vivo a querer;
Para o sedento asfalto a lama suplicava
O sangue, seu prazer;
E soubemos nessa hora que antes de outra aurora
Alguém ia pender.

Reentramos com calma, remoendo n’alma
A Morte, o Medo e o Nada;
Co’ uma sacola o algoz foi-se a arrastar os pés
Na sombria morada;
E cada homem tremia ao rastejar de volta
À tumba numerada.

Invadiam à noite o corredor vazio
Contornos de Temor,
Que erravam no desterro dessa rua de ferro
Com passos sem rumor,
E vinham, entre as barras que às estrelas velam,
Brancas faces compor.

Ele jazia como alguém que jaz e sonha
Em doce campo aberto;
Os carcereiros observavam-no a dormir,
Sem compreender, por certo,
Como podia dormir tal sono de abandono
Estando o algoz tão perto.

Os sonhos, porém, somem quando chora um homem
Que nunca chorou antes:
E assim, sem fim vigiamos nós – nós, os velhacos,
Os tolos, os meliantes;
E a nossas mentes veio, a rastejar, alheio
Terror com mãos crispantes.

Ai! Que tremenda coisa a remoer a culpa
Que é dos outros por direito!
Té o cabo envenenado a espada do Pecado
Cravou-se em nosso peito,
E foi chumbo fundido o pranto ali vertido
Pelo que fora feito.

Com sapatos de feltro os guardas se esgueiravam
Nas portas com cadeado;
O seu olhar de espanto via em cada canto
Um vulto recurvado;
E não sabiam por que se ajoelhava a orar
Quem nunca havia orado.

A noite toda oramos, loucos pranteadores
Do morto a nosso encargo!
As plumas no caixão eram as que agitava
A meia-noite ao largo;
E ao sabor do Remorso era o sabor da esponja
Com o seu vinho amargo.

Cantou o galo cinza, e então o galo rubro,
Mas nunca vinha o dia:
Com formas tortas, de tocaia em nossos cantos,
O Terror prosseguia;
Turbavam nossa paz todas as almas más
Que erram na hora tardia.

Em vôo veloz, iam por nós tal como um bando
Que em meio à neve passa;
Com torneio e torção, seu fino rigodão
Da lua faz chalaça,
Nesse encontro espectral de andamento formal
E repulsiva graça.

Com trejeitos se vão as sombras, mão com mão,
Formando uma cadeia;
Sua lenta ciranda era uma sarabanda
Em fantasmal colmeia,
Desenhando – os grotescos – doidos arabescos,
Como o vento na areia!

Fazendo piruetas como marionetes,
Saltitavam absortos;
Mas com flautas de Horror erguiam seus clamor
Hediondos e retortos…
Seu canto era alongado, seu canto era gritado,
Canto que acorda os mortos.

– Oho!? Clamavam. – Largo é o mundo! Mas que embargo
É um membro acorrentado!
E também é cortês, sim, uma ou outra vez
Arremessar o dado;
Na Casa da Vergonha, entanto, jamais ganha
Quem joga co’o Pecado.?

Não era apenas ar o bando a cabriolar
Com tal gozo e prazer:
Para quem tinha a vida por grilhões contida
E não podia correr –
Chagas de Cristo! – os seres eram coisas vivas,
Terríveis de se ver.

Rodavam frente a frente. Rindo tolamente,
Uns aos pares valsavam;
Outros, com requebrar próprio de um lupanar,
Nos degraus se esgueiravam…
Com seu desdém sutil e seu olhar servil,
A orar nos ajudavam.

Pôs-se então a gemer o vento da manhã,
Sem à noite espantar –
A noite que tecia a teia da agonia
No seu grande tear;
E, orando ali, bem cedo nos venceu o medo
Da Justiça Solar.

Gemendo, o vento em volta dos chorosos muros
Vagava; até que, enfim –
Roda de aço a girar – sentimos o arrastar
Dos minutos sem fim.
Vento gemente! O que fizemos para termos
Um senescal assim?

Eu vi então as negras barras (gelosia
Com o chumbo forjada)
Movendo-se, ante a minha cama de três pranchas,
Na parede caiada,
E soube que nalgum lugar fazia Deus
Ser vermelha a alvorada.

Às seis horas limpamos nossas celas,
Às sete tudo é espera…
E o vibrar e o voltear de uma asa poderosa
Sobre o cárcere impera,
Pois o Senhor da Morte – o bafo frio e forte –
Para matar viera.

Em real pompa não passou, nem cavalgou
Corcel branco-lunar.
O alçapão corredio e três jardas de fio
Bastam para enforcar:
Co’a corda da vergonha veio a ação medonha
O Arauto praticar.

Éramos como um bando em pântano tateando
Na suja escuridão:
Não ousávamos dar vazão à nossa angústia,
Dizer uma oração;
Algo morrera em nós, e o que morrera fora
A Esperança… a Ilusão.

Pois a cruel Justiça do Homem Segue avante,
Vai firme, não trepida:
Tanto ela mata quanto mata o forte
Em sua mortal corrida…
É com tacão de ferro que ela mata o forte
A hedionda parricida!

Grossa de sede a língua, à espera das oito horas
Sentamo-nos à toa,
Porque o bater das oito é o sino do Destino
Que nos amaldiçoa
E tem a seu serviço um laço corrediço
Para a alma ruim e a boa.

Ficamos cada qual à espera do sinal
(Nenhuma opção melhor),
Como coisas de pedra em vale solitário,
Sem voz e sem rumor;
Mas cada coração batia lesto e presto,
Qual louco num tambor!

Quando, em súbito choquem, vem do relógio um toque
Que fere o ar invernoso;
Então, todo o presídio deu triste gemido
De desespero ocioso,
Igual ao som que chega aos assustados charcos
Do covil de um leproso.

E, como muitas vezes no cristal de um sonho
Vê-se o pior delito,
Eis na trave enganchada a corda besuntada
De cânhamo maldito,
E eis o som da oração que o laço do carrasco
Estrangulou num grito.

Somente eu conheci a dor que o fez berrar
Com amargor tão forte,
E os remorsos violentos e suores sangrentos
De sua negra sorte:
Quem vive mais do que uma vida também deve
Morrer mais que uma morte.

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