“Não combata os monstros temendo tornar-se um deles, se você olhar para o abismo, o abismo olhará para você.”
Nietzsche


Tavares se sentia cada vez mais acuado, todos os seus planos estavam se dissipando, fugindo de suas mãos como areia. Não aceitava perder tudo o que tinha conquistado com muito custo, uma vida batalhando para chegar até onde chegou. Ser reconhecido pela nata da cidade, e tudo isso sucumbia a cada minuto. Não entendia o porquê dos erros, das falhas existentes. Sua vida estava por um fio, ele seria atirado á lama, não teria mais como recuperar cada minuto de lutas e batalhas até ali. Não via escolhas para serem feitas. As paredes o comprimiam cada vez mais. Como enfrentar Kátia, como explicar o que não tinha mais explicações. Decidiu-se ali mesmo, em por um fim para todos os seus problemas. Algo definitivo, sua mente já não pensava, seu corpo seguia um ritmo automático, não conseguia mais coordenar os movimentos certos. Sua respiração estava ofegante, se desvencilhou da gravata que o apertava, como a acusar cada um de seus crimes, acusar suas falhas, seus medos. Estava sozinho. A esta hora da noite, seu escritório não lhe dava a segurança do dia, pela janela apenas as sombras dos edifícios próximos. A lua se escondia em meio às névoas que insistiam em povoar o céu. Uma fina garoa se anunciava, trazendo consigo as lágrimas que, homens como ele, não conseguiria mais possuir. Pensava em como sair de toda aquela situação, não havia uma porta aberta, uma mão acolhedora neste momento. Estava só, uma solidão nunca antes sentida, perdido entre seus pensamentos nebulosos, como a noite. Levantou-se, e pôs a andar pelo escritório, arrumando os pequenos detalhes que ornavam seu ambiente. Sua mente não se aquietava. As acusações não lhe davam um segundo de repouso. Pegou de trás de alguns livros, uma pequena garrafa, e serviu-se do seu melhor uísque, sem gelo. Sorveu em um único gole, sentado em sua poltrona referida. Adorava ao final do dia de trabalho, sentar-se ali, e observar o sol se escondendo por detrás dos prédios, e sabia que quando o sol desaparecesse por completo, mais um dia estaria terminando, mais um passo em sua busca pessoal de poder dentro do complexo teria sido dado. A que ponto havia chegado, não esperava ter ido tão longe assim. Por um minuto, se lembrou de quando tomou a decisão, um único telefonema dado, e todo o problema estaria acertado. Eliminaria o motivo de seus medos. Um acidente do destino, todo planejado dentro da casualidade de uma grande capital. Agora pensava no mal que havia feito. Não havia mais volta. Estava tudo terminado, e agora uma parte dele não existia mais. Neste momento, sabia que não poderia pedir perdão.
Faria a única coisa que poderia ao menos reparar seu erro. Viu por sobre a mesa o pedaço de papel escrito de próprio punho, com a tinta ainda fresca. Tudo estava explicado ali. Daria todo o amparo necessário para o fruto de seu erro. Ele olhou sua estante, as pequenas coisas que lembravam o passado. Bebeu mais uma dose de seu uísque, respirou absorvendo todo o ar em seu pulmão e olhou pela última vez a janela, somente viu seu próprio reflexo, e as névoas. Num instante, estava sentado em sua poltrona, com seu copo de uísque na mão, pensando em tudo que perdera, no instante seguinte, seu corpo se chocava com grande violência com os vidros da janela, despedaçando a visão de si mesmo. Os pedaços de vidro penetraram seu corpo, causando profundos cortes em sua face, mas a dor não era mais sentida, apenas o vazio por debaixo de seus pés. Havia alcançado o mais alto que poderia em sua vida, estava voando, livre, sem mais problemas, sem medos, apenas levantou seu vôo por sobre a cidade que um dia pensou em conquistar. O vento batia com força em seu rosto, contraindo seus músculos a cada andar que avançava. Reviu todos os momentos de sua vida. Seu casamento, as colunas sociais, as férias que aproveitava em pequenos paraísos particulares, toda sua vida de sucesso passou por alguns segundos em sua mente. Mas em pouco tempo, estas mesmas imagens se transformaram, e viu também suas traições, seus erros que não tinham mais perdão, sua vida que agora, neste último salto para o seu sucesso, ele deixava para trás. Neste momento sorriu, seria lembrado por todos, seria por mais uma vez capa de jornais, sua foto estaria estampada nos principais meios de comunicação. Esta era sua felicidade, alcançara seu mais alto posto. E estava satisfeito consigo mesmo. A queda continuava vertiginosa, cada segundo a mais que se passava era um segundo a menos em sua vida.
Nos últimos segundos, ele chorou, chorou como uma criança assustada, queria os braços de sua mãe, o conforto do ventre materno, e com a imagem de sua infância, por trás de seus olhos fechados, sorriu tranqüilo, quando se sentiu seguro no seio de sua mãe. Chocou-se causando um grande impacto contra o asfalto úmido. Não sentiu o momento do impacto, sentiu apenas um alívio, e segundos depois, nada mais existia. Apenas um corpo, caído sobre a calçada, espalhado em um círculo vermelho de sangue. Não tinha mais medo, não chorava mais, não sentia mais culpas. A chuva que começava lavou a calçada, levando junto toda culpa e todo o arrependimento de Tavares. Tudo terminara. O relógio da catedral próxima ao edifício, marcava quatro horas e cinqüenta e cinco minutos.

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