II

Nosso guardião passeou no pátio seis semanas
O cinza ainda vestia.
Com seu boné de críquete e seu passo lépido
Que alegre parecia;
Mas nunca em minha vida vi alguém olhar
Tão angustiado o dia.

Eu nunca vi alguém na vida que tivesse
Tanta angústia no olhar,
Ao contemplar a tenda azul que os prisioneiros
De céu usam chamar,
E as nuvens divagantes arrastando velos
Enredados pelo ar.

Não contorcia as mãos, como o imbecil que tenta
Nutrir, com cego afã,
No antro do negro Desespero, essa enjeitada
Que é a Esperança vã;
Ele apenas se punha a contemplar o sol,
Sorvendo o ar da manhã.

Não contorcia as mãos, e nunca, fraco ou frouxo,
Chorava em seu alinho,
Mas o ar, como se fosse anódino saudável,
Sorvia ali, sozinho;
E, com a boca aberta, ele sorvia o sol
Como se fosse vinho!

E, no outro pavilhão, eu e as demais almas
Também a padecer,
Tendo esquecido se nosso erro fora grave
Ou um erro qualquer,
Olhávamos entanto, com obtuso espanto,
Aquele que ia pender.

E estranho era notar, passando, como lépido
E alegre parecia;
E estranho era observar o modo como olhava
Tão angustiado o dia;
E estranho era pensar como era grande a dívida
Que ele pagar devia.

O olmo e o carvalho têm folhagens agradáveis,
Primaveril tributo;
Já a forca, onde a serpente finca embaixo o dente,
É uma árvore de luto,
E, verde ou ressequida, lá se perde a vida
Bem antes que dê fruto.

O mundano procura algum lugar na altura
Como o maior troféu;
Mas quem vai ao encalço do alto cadafalso
E da corda do réu,
Para enxergar por uma gola de assassino
A última vez o céu?

Se brilham vida e amor ao som de violinos
É doce e bom dançar;
Dançar seguindo a pauta do alaúde ou flauta
É ameno e singular;
Não é doce, ao revés, quando com ágeis pés
Se dança encima do ar!

Com mórbida suspeita, em curiosa espreita,
O olhamos dia a dia,
Cada um também assim a imaginar seu fim,
Por que ninguém sabia
Qual rubro inferno horrível sua não visível
Alma atormentaria.

Não mais, por fim, o morto caminhava em meio
Aos Julgadores seus,
E eu sabia que estava na terrível jaula
Com o banco dos réus,
E que seu rosto eu nunca mais veria neste
Doce mundo de Deus.

Fomos dois barcos condenados na tormenta,
Cruzando um do outro a via;
Não fizemos sinal e não dissemos nada…
Nada a dizer havia,
Pois nosso encontro não se deu na noite santa,
Mas no infamante dia.

Sendo dois réprobos, por muros de prisão
Vimo-nos, pois, rodeados;
Este mundo expulsara a nós de seu regaço,
E Deus, de seus cuidados;
Na armadilha de ferro sempre à espera do Erro
Nós fomos apanhados.

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