Manhã de sábado na casa de uma tradicional família carioca. Na mesa do café, a mãe, Lígia, já de biquini e canga amarrada pra descer nas areias do Leblon. O Pai, de chinelos e sem camisa, lendo “O Globo” enquanto mastiga um pãozinho com manteiga. Já passa das dez e meia e, misturada à maresia que entra pela porta da sacada, há uma leve porém indisfarçável irritação no ar.

– Augusto, já são dez e meia, eu vou lá acordar a Amanda.

– Deixa a menina dormir Ligia, que implicância.

– Mas está um dia tão lindo lá fora Augusto, que horas a gente vai à praia hoje? Já vai ser impossível arrumar um lugar pra barraca.

– Deixa a menina, Ligia. Ela foi dormir tarde. Ficou na Lapa até altas horas com as amiguinhas ontem.

Alguns minutos depois, surge Amanda, vestindo Jeans, camiseta do Nirvana, all star preto e com os cabelos ainda molhados do banho, repartidos ao meio, escondendo parcialmente o rosto. Senta-se à mesa em silêncio. Parte um pão e espalha patê de presunto sobre uma das metades.

– Amanda, minha filha, aonde você vai vestida assim?

– Não vou a lugar nenhum mãe.

– Como não minha filha? Tá um dia lindo, eu e seu pai estamos esperando você pra ir à praia.

– Não quero ir à praia mãe.

– Como não?

– Que saco…

– Isso são modos menina?

– Olha, pra mim chega. Mãe, pai, eu preciso falar uma coisa pra vocês.

A cara de Ligia ficou mais pálida que cera. Parecia que todo o bronzeado tinha ido embora em segundos. Augusto baixou o jornal e olhou sério pra filha. Parece que o momento que eles tanto temiam havia chegado. Nó na garganta. Frio no estômago.

– Calma Ligia, deixa a menina falar.

– É mãe, deixa eu falar.

– Fala filha.

– Eu não fui à Lapa ontem.

– Não? Aonde você se meteu até as quatro e meia da manhã?

– Eu estava num show de Rock.

– Rock? Você disse Rock?

– É mãe. Olha mãe, to cansada de ficar me escondendo sabe, eu preciso contar logo uma coisa que tá me incomodando. Não sei se vocês já perceberam mas eu sou meio diferente das outras meninas. Sempre fui. Eu não gosto de…é que… é que eu sou…

– …

– Pai, mãe, eu sou Paulista.

– Ai que desgosto, meu Deus, acho que vou desmaiar…

– Calma Ligia… ô Amanda, mas como? Você tem certeza?

– Ai minha filha, sempre desconfiamos que você fosse isso, mas sabe como é, a gente achou que era coisa de adolescente, que um dia ia passar. Acha que eu e seu pai não notamos que você era branquela? Que não ligava pra praia? Que adorava um prédio, um dia nublado, uma garoinha, um museu, um sanduíche de mortadela… Ai meu deus, quanto desgosto.

– Pois é mãe, sou Paulista mesmo. Aliás, eu sou Paulistana.

– Ai Augusto, olha o que essa menina tá dizendo. Paulistana? Que horror. Isso é culpa sua Augusto, ela puxou o seu lado da família.

– Não vem botando a culpa em mim não, Ligia.

– Deixa pra lá pai. Isso a gente não escolhe. A gente nasce. Eu sempre quis morar em Sampa. Eu já tô falando “meu” escondido há um tempo. E “estacionameinto” também.

– Tantos anos educando essa menina, comprando biquini e filtro solar pra ela, acordando todo domingo as sete e meia da manhã pra andar no Caminho Claudio Coutinho pra um dia ouvir isso. Isso é má companhia Augusto. Só pode ser. Amizade errada. Ficou andando com essa cambada de maluco agora deu nisso. Perdemos nossa filha. Filhinha, a gente paga pra você uma clínica bacana em Jacarepaguá, você passa uns meses lá e volta boa de novo. Isso passa meu bem.

– Mãe, ser paulista não é doença.

– Calma Ligia, deixa a menina.

– Olha Amanda, você pode ser quem você quiser. Mas se eu escutar um “meu” aqui dentro dessa casa, se no meu aniversário você cantar “é pique, é pique, é pique”, se experimentar cantar escravos de jó com aquele “tira, põe” ridículo que não encaixa na melodia, eu não tenho mais filha. Tá me endendendo?

– Tô, tô inteindeindo.

Texto de: Gastón – Vida Perra

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