Ele sentia o sangue em sua garganta
Amargo, pastoso, quente
Como um balsamo destrutivo
Era somente o que sentia
O ar entrava em seus pulmões como acido
E como um cancer descontrolado
Se espalhava pelo seu corpo
Branco, pálido, sem tato
Queimando tudo por onde passava
Um veneno necessário
Para sua curta sobrevivência
A vida lhe mostrará seu pior
E em raros momentos, o seu melhor
Já era um fato, que não sobreviveria
Já não queia mais a dor
Já não era mais digno
Seus passos se misturavam aos murmurios da noite
E seu corpo esguio se desviava das gotas de chuva
Que insistiam em cair aquela madrugada
Limpavam sua alma sofrida
Ao mesmo tempo que o lembrava de sua fútil existência
De sua passagem sem marcas
Sem grandes momentos
Sem amores reais
Seus olhos tentavam se manter despertos
Mas a debilidade de seus ossos já não auxiliavam
Sua respiração se tornava cada vez mais densa
Mais inconsistente
Já não surpia a vontade de viver
Estava Preparado para o fim
Sabia que chegaria um dia
Vivera em função deste instante
E agora temia o que já não tinha volta
temia a solidão que o esperava
Não havia amigos, nem familia
Erá só, assim havia escolhido
mas agora pensava nas escolhas
Sabia que era o fim
O frio o mantinha acordado
O vento levantava seus longos e claros cabelos
Já sem brilho, já sem vida
Impregnado pela fumaça ao redor
Sua unica companhia eram os ratos
Que caminhavam com ele, por entre os becos
Uma ou outra alma, as vezes aparecia
Oferecendo seu corpo
Oferecendo seus vicios
Mas ele já nada aceitava
Já não mais podia
Já estava deslocado de sua realidade
O sabor da ultima dose, e do ultimo trago
Ainda estavam em seu corpo
E agora sabia que seria o ultimo
Cada degrau uma lembrança
Cada lembrança uma lágrima sem vida
Que simplesmente escoava
Já sem sentimentos
Sem razão de existir
Degrau a degrau, seu destino chegava
Ao topo, podia ver as luzes da cidade
E as estrelas em um céu nublado
Como sua vista, como sua alma
Eram seus ultimos minutos
Apenas deixou-se cair
Sentir o vento cortando seu rosto
O grito preso em sua garganta
Sem plateia para ver
Sem aplausos no final
Deixou-se cair
14 andares, poucos segundos
Sem volta
Sua infância
Seus sonhos
Seus desejos
Passaram em segundo
E terminaram
Nos rabiscos de um giz na calçada…

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